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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Meu cliente esta doente


“Agora é doente, coisa de advogado para livrar cara de bandido.”

Assim expressou numa telenovela, uma artista indignada com o desenrolar de uma ação processual, que culminara com a liberdade de um bandido, que livre continuava na sua vida desagregadora, provocando ainda mais danos às pessoas, confiando na impunidade.

O discurso ficou martelando na minha cabeça, tal era a indignação ali encenada na vida irreal, mas sabendo sê-la tao gritante cá fora neste mundo de salve quem puder. Um mundo onde se constrói cada vez mais celas com dobradas instransponíveis paredes, bloqueadoras de ondas de frequências diversas, ao passo que se constrói cada vez menos salas de pré-moldados com lousa para enfraquecidas professoras para uma missão tao desprestigiada quanto a daqueles que fazem o dia a dia das celas de presídios.

Acompanhando noticias de nossas cidades, constantemente informando as mais perversas formas de criminalidades, que causa mal estar, provocando a sociedade questionar o código penal e sua aplicabilidade. Bem como são conduzidas pelas ações dos advogados nos exercícios, bem como a degradação de parcela desta profissão a serviço do crime organizado (sic), facilitando solturas, acessos aos dispositivos tecnológicos da comunicação, bem como as armas, que sustentam a força bandida.

Nossa angustia é cada vez mais latente, a cada crime, a cada impunidade anunciada. Os mesmos olhos assistem as truculências penais aos pobres soldados miseráveis do crime, ao passo que aos chefes é dado todo tipo de segurança e direito de defesas, com advogados se amontoando e se batendo nas portas das delegacias e presídios. Bandido preso, bandido solto, numa ciranda perigosa de prenuncio de novas mortes e delitos.

A criminalidade expandiu-se dos morros e guetos, e pelas drogas, abraçou jovens de classe media que sabendo da impunidade e pela necessidade de alimentar seu miserável vicio, se alistaram ao bando de grandes traficantes e assim facilitam a operação de acesso da droga pela porta de frente dos grandes e imponentes prédios, destruindo famílias e vidas. O que fez a classe media buscar discursos de penas de morte e leis draconianas. Quer dizer, quem até então não se importava com a criminalidade, hoje vendo esta invadir seus playgrounds, clubes, universidades, shoppings, acordam assustados, mas um pouco tarde percebendo que o mal é maior que todas as instituições repressoras, mantenedoras da paz, que muitas vezes, já estão vulneradas, viciada pelo mundo das drogas.

Então, entraremos agora numa nova questão, a de questionar os laudos psicoterapeutas largamente utilizados pelos advogados nas defesas aos infratores hediondos, diante dos mais bárbaros crimes. Mas continuaremos calados, sedados às dores daquelas mães, descidas dos morros, jogadas nas portas das delegacias ou dos prontos socorros, descabelando-se a afirmar, que seus filhos eram inocentes, antes de recolhê-los para uma cova generosamente doada pelo estado ou município, ou até mesmo por um político oportuno na cata de votos de sua futura participação.

Então ainda vamos continuar na covardia silenciosa, assistidos pelo estado, com falsas seguranças, pregando leis severas, mas aceitando a corrupção galopante, desviante de cifras milionárias aos paraísos de além mar. Ainda vamos continuar fomentando a pujança galopante da usura destes políticos, que em ação bandida, se locupletam e sorriem em nossos lares, de nossa vida carneira.

Pois é estamos todos doentes, febris, malucos por liberdade, pelo mínimo direito de ir e vir, pela alegria de poder voltar, uma doença que não se inventou, e para esta vontade desesperada, quem há de nos defender?





E Salazar não o calou, mas a morte...

“SE PUDERES OLHAR, VÊ. SE PODES VER, REPARA.
Retrato do desmoronar completo da sociedade causado pela cegueira que aos poucos assola o mundo, reduzindo-o ao obscurantismo de meros seres extasiados na busca incessante pelo poder. Crítica pura às facetas básicas da natureza humana encarada como uma crise epidêmica. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só dessa forma o homem se humaniza novamente. Caso contrário, continuará uma máquina insensível que observa passivamente o desabar de tudo à sua volta.” José Saramago falecido em 18/06/2010.



Toninhobira_18/06/2010.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pelourinho

Pelourinho Salvador Bahia






Passam os anos, mas nos becos ainda se sente os doridos gritos

Esquecidos entre casarões e monumentos a dor ainda ecoa

Liberdades ali negadas, com corpos dilacerados tingiram a praça, com sangue.

Olodum rufando seus tambores anuncia festa, mas prenuncia

Um novo tempo sem chibatas, troncos e maldades, nas suas melodias

Rufam tambores todos dançam, enquanto negras mulheres trançam

Incríveis e interessantes desenhos afros nas cabeças brancas

No largo do Pelô, hoje as cores se misturam aos olhos desconfiados de Zumbi, que

Herói questiona: admiram a arquitetura, mas sabem da escravatura?

Olodum repiquem os tambores! Que os deuses negros já descem a ladeira.







Toninhobira.

Publicado no Recanto das Letras.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Violencia que aflora lá fora.

Violencia que aflora lá fora.




Onda violencia se abate sobre as cidades .Todo mundo rouba todo mundo. Ninguem sabe mais quem é o ladão ou quem é a policia. Cada vez pior o dia a dia.”


Assim cantava o poeta e cantor *Gonzaguinha lá pelos tempos da Abertura, mas a gente não entendia ou não acreditou, no que aquele inconformado previa.


E foi assim, que todos nós depois de nove meses presos com toda segurança e carinho dentro de uma bolsa feminina, tivemos a liberdade forçada seguida de choros já na primeira tapa em nossas nádegas. Em pouco instante faríamos parte do exercito de libertos que crescia astronomicamente, quebrando todos os números de estatísticas.


Alguns mais otimistas diziam que nasciam mais soldados do que morriam. Percebia que os mais esclarecidos não se sabe bem como, pisaram no freio e se limitaram a uma prole mais reduzida. Em contra partida, nos guetos, favelas e recantos o que se via, era um crescimento assustado. Crianças nasciam a cada dia, a cada hora, a todo instante, onde justamente deveria haver maior controle da formação deste exercito de seres humanos desprovidos de tudo. Ao mesmo tempo, se assistia a famigerada idéia de reduzir este numero, com as mães lançando seus futuros soldados em lagoas, pântanos, rios e até lixeiras, após passarem por uma carnificina abortiva em algum falso posto medico. Ali começava a banalização da morte.


Num processo gradativo e altamente destrutivo, assistíamos aos soldados se deserdando da rota natural e esperada, para se alistarem ao mal, numa nova força estranha e esmagadora, que se criava naquele instante diante nossos olhos sem que fizéssemos nada. O mal prevalecia sobre o bem, a dona violência estava adotando aqueles soldados, e suas raízes passaram a ficar fortes encravadas lá nos morros, onde estrategicamente, montava e formava sua base. Lá já não se acreditavam, que estariam bem perto de Deus, pois o diabo era o porteiro, dono de todas as ações, saúde,escola, trabalho, diversão que a tudo o diabo controlava, enquanto que os governantes não as forneciam ou nem se preocupavam. Ali nascia a força geradora do medo, do terror.


Os soldados do bem passaram de libertos defensores da paz, a condição de acuados em seu próprio território. Foi neste momento que alguns se perderam, ao negociar com exercito do mal, o seu próprio direito de ir e vir. Sociólogos, estudiosos acordaram para re-estudar o que o poeta **Eduardo Alves Costa previa, quando de seus escritos em “No Caminho com Maiakovski” onde ele nos via como flores que foram arrancadas, pisadas, sem haver resistência. Foi o momento em que se percebeu, que todos estavam dominados e passamos a viver como presos em nossas casas, clubes, carros, trabalhos. O visual de grades de ferro passou a ser coisa comum, retiraram os bancos das portas das casas. Implantou-se o medo. Aos poucos nosso quintal, nosso jardim, nossas praias foram tomados, de nossas posses, de nosso domínio.


Não se encontrou a saída é bem verdade. Estudos não surtiram os efeitos desejados, esperado, não frutificaram. Passamos a eleger os culpados, e foram tantos, como melhor divisão da renda, o sucateamento da rede de ensino publico, o capitalismo selvagem, o FMI, os governantes em geral. Mas a violência sem saber ler e escrever, nasceu surda e assim foi se alojando onde a falta é gritante e valente, lá onde a miséria, a fome, rege uma orquestra de sons terríveis e destoados, oriundos das barrigas vazias. Já os menos credos passaram acreditar, que não tinha solução, apenas amenizações controladas.


Hoje a sociedade paga o preço de sua apatia e de sua cegueira diante das diferenças gritantes que crescia e não se via, por aprovar a tudo, em nome de uma normalidade, por deixar sempre, que outros fizessem o que todos poderiam ter feito. Inclusive a família a base de tudo, foi colocada num processo degradativo, e assim fomos colocados num túnel escuro, onde o ultimo a sair, apagaria a luz no final.

Mas que luz? Que túnel? Mas que saída?


Se todos já acreditávamos, que não existia luz alguma.


E assim foi, que nos sentimos impotentes trancados, presos em nossa comodidade e apatia.





*Musica de Gonzaguinha: A cidade contra o crime.

** “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada...” (Eduardo Alves Costa-1964)


Publicado no Recanto das Letras.
Toninhobira.

22/03/2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

A GENTE SE ACOSTUMA.

A gente se acostuma.
O ser humano tem uma forte tendência a se acostumar às varias situações, que a vida se lhe apresenta. Em cada etapa de nossas vidas estamos sempre colocados a enfrentar desafios. No inicio enfrentamos a situação de conviver com nossos primeiros medos e frustrações, bem como nossas primeiras aventuras. O medo de cair na falta do equilíbrio, que nos faz engatinhar e inversa/inocentemente a coragem para agarrar o rabo de um felino ou mesmo de um cachorro, ou se aventurar descer perigosa escada. Ali se dá o inicio da proteção assistida.
E acostumamos a ter proteção vigiada, entregamos a ela sem perceber, que ela um dia vai embora. O medo de errar nos persegue ao longo da vida, que às vezes nos impede de buscar novas aventuras e sucessos, vamos acostumando a fazer que nos parecessem mais fácil ou menos perigoso numa escala inconsciente de risco, que ficou enraizada em nosso subconsciente. Podem ter origens aí nossas frustrações, nossos fantasmas, que assombrarão nossa caminhada.
Na longa jornada deparamos com a vida nua e crua a ser vivida, quando aquela mão já não nos ampara. Os modelos que se apresentam nos chocam. É quando passamos a não querermos a acostumar com os parâmetros impostos por nossas famílias, igreja, escola e a sociedade. Tempo de apurar nossas vocações profissionais e políticas. Justamente neste momento em que muitos se perdem pela falta da base para este decisivo instante da vida. Muito comum ver pessoas estiradas pelas estradas da vida nesta etapa, onde as proteções não se evidenciam, e às vezes nem são aceitas. Neste momento, que muitos se perdem pelas drogas, alcoolismo como sendo caminho mais fácil da alienação perante as dificuldades. Processa-se a total negação.
Acostumar se transforma numa perigosa entrega às apatias tão comuns, quando a pessoa se sente incapaz de lutar contra a desordem familiar, social, política e econômica. Passamos a ser vitimas deste rolo compressor. Vive-se no limite da razão, neste período alguns se engajam a uma tendência política e ou filosófica, ou mesmo buscam filiação a partidárias. Há registros até mesmo de casos de suicídios nesta fase em que tudo parece não ter solução, quando o pensar extremo invade seres nas suas buscas, que culmina com tirar a própria vida. Desilusão total.
Aceitar e acostumar são as novas inquietações, na fase que entramos numa espiral existencial, quando somos levados ao exercício de uma função no sistema produtivo. Nesta miscelânea entramos no ápice da vida profissional e começa a ter de aceitar péssimos gerentes, imbecis dirigentes aceitando em nome da comodidade sobrevivente, de defender o pão nosso de cada dia. Nessa jornada escalada, aceitamos a pobreza do pensar geral do salve-se quem puder. Já não somos seres racionais na integridade da essência e desfilamos pela vida, nutrindo nossas mais terríveis decepções e frustrações, pela incapacidade de resolver as questões cruciais humanas e sociais. Processa-se a insatisfação.
Assim é preciso uma ação multiforças com sabedoria, na preparação de nossas crianças, nossos jovens na maneira de se conduzir na longa jornada. Nesta ação de mãos dadas famílias, escolas e comunidades arrastando a igreja, na orientação pessoal vocacional, no exercício de fazer prevalecer os melhores e capazes, na condução dos processos. Criar a responsabilidade política e fazer mudar todo pensar e exercer de uma função política. Processa-se a reflexão.
E penso que se assim procedendo teremos homens melhores e pessoas mais felizes.
Toninhobira/15/06/2010